A redução de roubos e furtos não significa que a criminalidade esteja necessariamente diminuindo. Parte dela está mudando de endereço: das ruas para as telas, dos assaltos presenciais para as fraudes digitais e das ações individuais para organizações criminosas altamente especializadas. O crescimento dos crimes de estelionato no Brasil traz à tona um novo perfil da criminalidade e que faz com que a segurança pública fique mais atenta para acompanhar a velocidade com que as organizações criminosas migram para o ambiente digital.
Dados publicados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 mostram que o Brasil registrou 2,16 milhões de casos de estelionato em 2024, o equivalente a 247 ocorrências por hora. O número representa um crescimento de cerca de 7,8% em relação ao ano anterior e contrasta com a redução observada em crimes patrimoniais tradicionais, como roubos e furtos de celulares.
O cenário também é preocupante quando se observa o caminho percorrido pelos registros até chegar ao sistema de Justiça. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça citados pelo Anuário, apenas 51.793 dos mais de 2 milhões de casos registrados chegaram à Justiça, evidenciando o tamanho do desafio enfrentado pelas instituições responsáveis pela investigação e responsabilização dos criminosos.
Crime migra para o ambiente digital
A mudança não ocorre por acaso. A ampla utilização de aplicativos de mensagens, redes sociais, serviços bancários digitais e sistemas de pagamentos instantâneos criou novas oportunidades para grupos criminosos, que passaram a atuar sem as limitações geográficas presentes nos crimes convencionais.
A Global Anti-Scam Alliance (GASA) também aponta a dimensão do problema. Em levantamento divulgado em 2024, a entidade estimou em R$ 297,7 bilhões as perdas provocadas por golpes no Brasil, enquanto apenas 4% das vítimas pesquisadas afirmaram ter recuperado integralmente o dinheiro perdido.
O problema ganhou novas dimensões com a utilização de inteligência artificial. Levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo em junho de 2026 mostrou que decisões judiciais envolvendo estelionato em São Paulo mais do que dobraram desde 2022, período que coincide com a disseminação das ferramentas de IA generativa. A tecnologia vem sendo utilizada por criminosos para produzir mensagens mais convincentes, automatizar abordagens e sofisticar tentativas de fraude, embora não seja possível estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a IA e o crescimento dos crimes.
Para o enfrentamento desse novo cenário, não basta ampliar mecanismos de prevenção. É necessário fortalecer a capacidade investigativa do Estado, algo que o SIPESP insiste em sua atuação.
A identificação dos autores de fraudes digitais frequentemente exige conhecimento especializado, análise de dados, rastreamento de transações financeiras, investigação de redes criminosas, cooperação entre instituições e acesso rápido a informações que podem desaparecer em questão de horas.
Outro obstáculo está na utilização de contas bancárias de terceiros, empresas de fachada e as chamadas “contas laranjas”, utilizadas para movimentar e pulverizar os recursos obtidos ilegalmente.
Enquanto os criminosos conseguem operar de forma rápida, descentralizada e interestadual, as estruturas públicas ainda enfrentam limitações de pessoal, equipamentos, tecnologia e capacitação específica.
A própria GASA, em seu relatório sobre o cenário brasileiro de 2025, destacou a profissionalização das redes de contas utilizadas para receber recursos de golpes e defendeu maior integração entre instituições financeiras, plataformas digitais, órgãos públicos e forças de segurança.
Preparação da Polícia Civil
Nesse contexto, o fortalecimento da Polícia Civil assume papel estratégico. É a instituição responsável pela investigação de grande parte desses crimes e que precisa acompanhar uma criminalidade cada vez mais tecnológica, organizada e especializada.
Não se trata apenas de adquirir novos equipamentos. É necessário investir permanentemente na formação dos policiais, ampliar os núcleos especializados, garantir ferramentas de inteligência e análise de dados, fortalecer a perícia e criar mecanismos eficientes de integração entre as diferentes instituições envolvidas no combate às fraudes.
A realidade demonstra que o investigador de polícia precisa estar preparado para lidar não apenas com o crime tradicional, mas também com dados bancários, rastreamento financeiro, plataformas digitais, criptomoedas, inteligência artificial, engenharia social e organizações criminosas que podem atuar simultaneamente em diferentes cidades e estados.
Operações recentes demonstram que, quando há estrutura e capacidade investigativa, as Polícias Civis conseguem alcançar organizações complexas. Em fevereiro de 2026, por exemplo, uma operação da Polícia Civil de São Paulo contra uma organização suspeita de fraudes eletrônicas, estelionato e lavagem de dinheiro resultou em 12 prisões e investigações que alcançavam São Paulo, Minas Gerais e o Distrito Federal.
Para o SIPESP, discutir o combate às fraudes significa também discutir as condições oferecidas aos profissionais responsáveis pelas investigações. Não é razoável exigir que policiais combatam organizações criminosas cada vez mais sofisticadas utilizando estruturas defasadas, efetivos insuficientes e ferramentas incompatíveis com a complexidade dos crimes investigados.
A modernização da segurança pública precisa necessariamente passar pela valorização dos investigadores, pela recomposição dos quadros policiais, pela capacitação permanente e pelo investimento em tecnologia e inteligência.
