Descredenciamento de clínicas no ABC preocupa servidores públicos

O contraste entre a narrativa oficial de expansão e a realidade enfrentada pelos servidores levanta questionamentos sobre prioridades, gestão de recursos e o futuro da assistência médica oferecida pelo IAMSPE.

O Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (IAMSPE), responsável pelo atendimento de cerca de 1,1 milhão de beneficiários e com uma rede credenciada de aproximadamente 954 prestadores em 165 municípios paulistas, enfrenta um momento de crescente preocupação entre servidores públicos, especialmente policiais civis.

O SIPESP (Sindicato dos Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo) recebeu relatos de investigadores da Polícia Civil sobre o descredenciamento recente de clínicas e hospitais na região do ABC Paulista, incluindo unidades utilizadas para exames e atendimentos essenciais.

Segundo os relatos, servidores têm encontrado unidades que deixaram de atender os servidores, o que gera insegurança e dificulta o acesso a procedimentos médicos já agendados.

“Estão descredenciando muitas clínicas na região do ABC. Um colega, inclusive, foi fazer um exame agora e não foi atendido. Agora ele está desesperado porque precisa fazer os exames dele”, relata um investigador da região.

Filas no interior e deslocamentos superiores a 100 km

A situação se estende para além da Região Metropolitana e da Grande São Paulo. Em uma reportagem da Folha de São Paulo, usuários do interior do estado relataram esperas que variam entre 30 e 90 dias para exames, além da necessidade de percorrer mais de 100 quilômetros para realizar determinados procedimentos médicos.

O cenário teria sido agravado pela perda de unidades credenciadas, o que sobrecarrega hospitais remanescentes e amplia o tempo de espera para consultas, exames e internações.

Estado reduz participação no custeio do IAMSPE, aponta MP

Dados obtidos em apuração do Ministério Público indicam um problema estrutural no financiamento do Instituto: o Tesouro Estadual não estaria repassando integralmente os valores previstos em lei.

Desde 2020, a contribuição do Estado para o custeio do IAMSPE tem variado entre 6,5% e 28% da receita total.

Enquanto isso, a maior parte do financiamento do Instituto depende da contribuição direta dos servidores, embora a legislação determine que o Estado complemente os recursos necessários para garantir a sustentabilidade do sistema.

Discurso de expansão contrasta com relatos de servidores

Apesar das denúncias e dificuldades relatadas pelos usuários, o discurso oficial do Governo do Estado aponta crescimento dos investimentos em saúde.

De acordo com a Agência São Paulo, o orçamento estadual da saúde para 2026 deve alcançar R$ 37,9 bilhões, representando um aumento de R$ 1,5 bilhão em relação a 2025. Entre os investimentos anunciados estão:

  • A conclusão do Hospital Regional de Cruzeiro;
  • O Hospital Estadual de Franca, ambos com entrega prevista para 2026;
  • A ampliação da Tabela SUS Paulista, que já destinou mais de R$ 8 bilhões às Santas Casas e serviços de saúde em todo o Estado

No entanto, na prática, servidores afirmam que o IAMSPE não acompanha esse discurso de expansão, enfrentando perda de prestadores, filas prolongadas e dificuldades de acesso regional.

Para o SIPESP, há uma evidente contradição entre os números oficiais e a realidade vivida pelos usuários.

“O discurso institucional aponta crescimento, mas a percepção dos servidores é de retração local, perda de unidades e dificuldade real de acesso à saúde. Vamos cobrar transparência e providências imediatas”, afirma a diretoria do Sindicato.

O SIPESP pretende analisar os impactos regionais e cobrar esclarecimentos formais sobre os impactos diretos na assistência médica na Polícia Civil de São Paulo.