A precariedade das delegacias da Polícia Civil no Estado de São Paulo voltou ao centro do debate após a publicação de uma reportagem do portal Último Segundo, do IG, que denunciou as condições alarmantes do 1º Distrito Policial de Limeira (clique aqui e confira a matéria). A matéria reforçou um cenário que, segundo o Sindicato dos Investigadores de Polícia do Estado de São Paulo (SIPESP), está longe de ser isolado.
Em entrevista, a vice-presidente do SIPESP, Ildete Santos, afirmou que o sindicato vem consolidando uma ampla operação de fiscalização das condições de trabalho na Polícia Civil, reunindo denúncias desde agosto de 2025. O material é coletado de forma organizada, com relatos detalhados, imagens, vídeos e documentos, todos enviados de maneira anônima pelos próprios policiais civis.
Segundo Ildete, a iniciativa ganhou novos contornos após uma reunião com representantes de diversas carreiras da Polícia Civil, na qual foram relatadas situações graves tanto no âmbito estrutural quanto funcional das unidades policiais em diferentes regiões do estado.
“O que foi mostrado em Limeira, por meio da reportagem no Portal IG, é apenas a ponta do iceberg. A realidade é de abandono crônico das delegacias, especialmente no interior e no litoral”, afirmou. “O SIPESP está disposto a mostrar, pessoalmente, a verdadeira realidade da Polícia Civil paulista. Fazemos muito com pouco, mas o crime não espera, e a vítima não pode esperar”, concluiu.
Após a grande repercussão da reportagem no meio policial, o SIPESP passou a receber diversas mensagens de policiais com questionamentos e relatos sobre as denúncias apresentadas. Diante disso, surgiu a necessidade de aprofundar o tema, o que resultou na entrevista a seguir. Confira.
- Como você avalia a situação estrutural das delegacias da Polícia Civil no Estado de São Paulo?
O problema estrutural, não apenas da delegacia de Limeira, mas de tantas outras pelo Estado de São Paulo, é crônico. O SIPESP vem desenvolvendo, desde agosto de 2025, apurações de denúncias realizadas por policiais e delegacias de diversos pontos do estado, não só relacionadas à estrutura física, mas também à falta de efetivo, que gera uma sobrecarga absurda de trabalho, principalmente para os policiais civis do interior. O Governo do Estado, responsável por fornecer locais de trabalho dignos, tem ciência desses problemas, mas faz o famoso “olho de vidro”. Nenhum governador se interessou em resolver questões que se arrastam há décadas. As delegacias que possuem melhor estrutura geralmente contam com apoio das prefeituras ou de comerciantes locais, que auxiliam em reformas para garantir um mínimo de dignidade aos policiais e à população. - Como o SIPESP toma conhecimento das situações nas delegacias e de que forma as denúncias chegam ao sindicato?
Como não temos diretores suficientes para apurar todas as denúncias imediatamente, elas são analisadas conforme a ordem de recebimento. O sindicato possui um canal exclusivo em seu site, com garantia de anonimato. Os policiais enviam relatos acompanhados de fotos e vídeos que comprovam problemas estruturais e falta de efetivo. Recentemente, divulgamos vídeos de uma delegacia do litoral onde, quando chove, há mais água dentro da unidade do que fora, e mesmo assim os policiais são obrigados a trabalhar nessas condições. - Quais providências o SIPESP adota após o recebimento de uma denúncia?
Após o recebimento da denúncia, mesmo com fotos e vídeos, nossos diretores se deslocam até a delegacia para confirmar os relatos. Confirmadas as irregularidades, o Departamento Jurídico do SIPESP ‘oficia’ a Diretoria da Polícia Civil responsável pela região, a Delegacia Seccional e a Delegacia Geral de Polícia. Caso não haja retorno, toda a documentação é encaminhada ao Ministério Público e ao juiz corregedor da região denunciada. - Existe um prazo para que as irregularidades apontadas sejam solucionadas?
Infelizmente, não. A normalização da unidade não é competência do sindicato. Quando formalizamos a denúncia, espera-se que os órgãos competentes tomem providências imediatas, o que, na prática, não ocorre. - Como o Governo do Estado reage às denúncias formalizadas pelo sindicato?
O Governo do Estado de São Paulo simplesmente ignora a situação dos policiais civis. Ainda afirmam que nunca foram oficiados ou que estão tomando providências, o que é uma falácia. Nada é feito. Um exemplo clássico é o pagamento de aluguel de imóveis inadequados para funcionamento de delegacias. Na maioria dos municípios, quem arca com a maior parte desses custos são as prefeituras, e não o Estado. - O SIPESP entende que essa realidade viola a dignidade do servidor público?
Sim. Os policiais civis são submetidos a situações que ferem sua integridade física, moral e psicológica. Trabalhar em delegacias do interior ou do litoral no verão, sem ar-condicionado, ventiladores ou até janelas, não é dignidade. Não ter água filtrada, papel higiênico ou banheiro em condições de uso também não é digno, nem para o policial, nem para a vítima que busca atendimento. - Na avaliação do sindicato, por que o Estado não resolve esses problemas?
É falta de interesse e compromisso. O Estado que mais arrecada no país não oferece o mínimo de condições para seus policiais trabalharem. Enquanto há propagandas sobre investimentos em segurança pública, a realidade das delegacias do interior e do litoral é de abandono total, inclusive no que diz respeito a banheiros e estruturas básicas para atendimento da população. - Houve alguma resposta oficial do governo do Estado sobre os problemas?
Nós policiais não temos como dar uma explicação plausível a população, por ela ficar horas em uma delegacia e muitas vezes não ter um banheiro ou um bebedouro dignos que ela possa utilizar. Se as delegacias continuam funcionando normalmente, não é graças ao governo do Estado, é graças ao comprometimento de homens e mulheres que prestaram um concurso concorrido e assumiram o compromisso de servir, honrar e proteger a população. Este é o lema da Polícia Civil do Estado de São Paulo.
- Quantas delegacias funcionam normalmente atualmente?
Somente uma parte em relação ao “funcionando normalmente”. “Normalmente” seria cada delegacia funcionar em uma escala de 24 horas, sete dias por semana, mas isso não ocorre. Motivo? A falta de efetivo. Para o governo do Estado é cômodo fechar à noite e finais de semana várias delegacias de uma região e encaminhar todas as ocorrências para um único distrito. Como fica uma vítima que se vê obrigada a percorrer quilômetros para registrar um crime que a vitimou naquele momento? Muitos irão dizer: ah, mas a PM leva para a delegacia. Ledo engano, a PM não é onipresente, ela não consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo. - Plantões policiais com apenas um policial para todo o processo é uma realidade?
Sim e é cômodo para o governo ter um único policial atendendo cinco, seis cidades (no caso do interior) durante seu plantão. Aliás, o governo chama isso de “modernidade”. Falta com a verdade dizendo que há cidades do interior que o policial fica sozinho, mas quando chega um flagrante, por exemplo, as oitivas são feitas por um Delegado de Polícia e um Escrivão de Polícia on-line, mas o governo só não divulga que o único policial desta delegacia tem de montar os equipamentos para que ocorram as oitivas on line e quando elas terminam, é este único policial que tem de fazer o restante da papelada do flagrante, revistar e guardar o preso, em caso de tráfico de entorpecentes, este único policial tem de fazer uma constatação preliminar de drogas, fotografar, pesar, lacrar, emitir um laudo e depois fechar a delegacia, ir para outra cidade ou município e entregar o entorpecente para que a constatação seja feita pelo Instituto de Criminalística da região. Sabe o porquê disso? Para que a PM e a GCM possam voltar rapidamente para patrulhar as ruas e como fica a saúde física e mental daquele único policial que tem de trabalhar por dois ou três? - As situações estruturais dentro das delegacias também dificultam o trabalho dos policiais civis?
O que o governo não divulga é que há cadeias no litoral do Estado em que o preso fica algemado a uma barra de ferro, sentado em uma cadeira porque a cadeia está interditada e não há como alocá-lo como deveria. Já ocorreram fugas por conta desta falta de estrutura, por esta falta de efetivo. Aquele único policial tem de “cuidar” do preso e registrar as ocorrências. Fica complicado uma pessoa fazer as duas coisas. Sabe o mais interessante? Nas delegacias que funcionam com um único policial, há câmeras de monitoramento que o acompanham durante todo o seu plantão. Se o policial sair do foco da câmera para se alimentar ou ir ao banheiro, logo o telefone toca para saber onde ele está. Se ocorrer a tentativa de resgate de um preso em uma delegacia dessa, o que adiantam câmeras de monitoramento? Nada. Os próprios policiais não terão como chegar a tempo de evitar o resgate ou até mesmo evitar que o único policial que ali está seja ferido ou morto. - Qual recado o SIPESP gostaria de deixar para o Governador?
O governador Tarcísio de Freitas é um homem honrado, digno e um bom administrador, mas acreditamos que muitas coisas não chegam ao seu conhecimento. O SIPESP convida o governador do Estado a nos acompanhar em visitas surpresas a várias delegacias que já confirmaram as denúncias e quero ver dizerem que o SIPESP está faltando com a verdade. Adoraríamos mostrar pessoalmente ao governador a real Polícia Civil do Estado de São Paulo. Enquanto há viaturas novas circulando pelo centro de São Paulo, para que a população tenha a impressão de que há um investimento na Segurança Pública, na Grande São Paulo, Interior e Litoral, há viaturas sucateadas e que estão rodando porque o policial paga do próprio bolso o conserto ou tem de se apelar para algum mecânico seu amigo para consertar a viatura de graça. Os carros são do Estado e não do policial. É isso ou não temos como atender uma ocorrência ou diligenciar durante uma investigação, O crime não espera. A vítima não pode esperar. Fazemos muito com o pouco que temos. Há delegacias em que o delegado leva a própria impressora, porque a que o governo dá, quebra, não há previsão para conserto ou reposição. Há distritos em que não há papel sulfite, os policiais é que compram. O governo sabe de tudo isso? Sabe. Tomar providências efetivas? Não. Torno a falar: se o governador quer conhecer a verdadeira Polícia Civil e as reais condições em que seus policiais trabalham, nós do SIPESP teremos o maior prazer em acompanhá-lo nas visitas.
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