A rotina de um policial civil é marcada por pressão constante, contato diário com violência, jornadas desgastantes e situações de extremo desgaste emocional. Nos últimos anos, dados oficiais passaram a revelar uma realidade cada vez mais preocupante: o adoecimento mental dentro das forças de segurança pública brasileiras.

O tema ganhou destaque em estudos recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que apontam crescimento nos índices de sofrimento psicológico, afastamentos e suicídios entre profissionais da área. Segundo o Anuário 2025, os suicídios de policiais continuam entre os principais fatores de vitimização dentro das corporações, superando, em alguns períodos, até mesmo mortes em confrontos.

De acordo com o Anuário, em 2024, os policiais civis morreram mais por suicídio do que pelas mortes em confronto – 20 suicídios frente a 14 mortes por confronto.

Especialistas apontam que fatores como excesso de trabalho, exposição contínua à violência, pressão hierárquica, insegurança institucional e dificuldade em buscar ajuda psicológica contribuem diretamente para o agravamento de quadros de ansiedade, depressão e síndrome de burnout.

O próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública ressalta que a saúde mental dos policiais precisa ocupar posição central nas políticas públicas de segurança. O documento destaca que o desgaste físico e emocional decorrente do contato permanente com situações de risco tem aprofundado problemas psicológicos dentro das corporações.

Outro problema recorrente é a deficiência na oferta de atendimento especializado. Em diferentes estados brasileiros, entidades ligadas à segurança pública relatam carência de psicólogos e psiquiatras disponíveis para acompanhamento contínuo dos agentes. A preocupação é tamanha que projetos de lei voltados à criação de políticas nacionais de saúde mental para profissionais da segurança passaram a tramitar no Congresso Nacional nos últimos anos.

Em São Paulo, o Governo do Estado e órgãos ligados ao funcionalismo vêm ampliando iniciativas de acolhimento psicológico e psiquiátrico para servidores públicos. O Governo do Estado de São Paulo destaca que a saúde mental é uma das prioridades das políticas públicas de saúde, enquanto o IAMSPE lançou recentemente um programa de teleatendimento psicológico e psiquiátrico para servidores estaduais.

SIPESP em prol da valorização da vida

Dentro desse cenário, o SIPESP tem reforçado a importância do acolhimento emocional dos policiais civis e de seus familiares. O sindicato oferece atendimento gratuito em saúde mental para sindicalizados e dependentes, reconhecendo que o cuidado psicológico é fundamental para a preservação da qualidade de vida dos profissionais da Polícia Civil.

Atualmente, o atendimento terapêutico é realizado pela psicanalista integrativa Luciana Bonis às quartas e quintas-feiras, das 13h às 17h. Já o atendimento psiquiátrico é conduzido pelo Dr. Idanir Neto às quartas-feiras, a partir das 15h. O modelo adotado prioriza o acompanhamento humanizado e individualizado, com apenas um paciente por dia e consultas que podem durar entre 1h30 e 2 horas.

Terapeuta Luciana Bonis

Segundo a terapeuta Luciana Bonis, a terapia possui um papel fundamental para os policiais civis. “Desde o início dos atendimentos no SIPESP, é possível perceber que o acompanhamento psicológico e terapêutico contribui significativamente para a saúde mental, melhora das relações interpessoais e qualidade de vida desses profissionais. Além disso, a terapia funciona como um espaço seguro para elaboração de emoções e conflitos que muitas vezes são silenciados dentro da rotina policial”, explica a profissional.

Quando questionada sobre a resistência na busca por qualquer tipo de assistência psicológica, Bonis relata que ela existe ainda mais latente no ambiente policial. “A cultura profissional ligada à segurança pública muitas vezes valoriza a ideia de força, controle emocional e resistência psicológica, o que pode fazer alguns policiais associarem a busca por ajuda a uma demonstração de fragilidade. Entretanto, observa-se uma mudança gradual nessa percepção. Cada vez mais profissionais compreendem que cuidar da saúde mental é uma forma de prevenção e fortalecimento pessoal, e não um sinal de fraqueza”, afirma.

Dr. Idanir Neto – Psiquiatra

Além do suporte emocional, especialistas defendem que o enfrentamento da crise de saúde mental nas forças policiais exige mudanças estruturais, como valorização profissional, recomposição de efetivo, melhoria nas condições de trabalho e combate ao estigma relacionado ao tratamento psicológico dentro das corporações.

Para o SIPESP, discutir segurança pública também significa discutir a saúde daqueles que estão diariamente na linha de frente da proteção da sociedade.

“O cuidado com a saúde mental do policial não beneficia apenas o profissional individualmente. Também impacta diretamente sua família, suas relações sociais, sua capacidade de tomada de decisão e a qualidade do serviço prestado à sociedade. Investir em apoio psicológico é investir em prevenção, bem-estar e segurança coletiva.”, ressalta Bonis.